No início desse ano o Isaque começou o maternal por recomendação médica. A ideia era “forçar” a interação dele com as outras crianças.

Ele gostou da escolinha. Ao contrário da anterior, onde a Raquel trabalhou, que ele começava a reclamar quando percebia que estava chegando perto da escola, nessa ele vai todo contente.

As crianças da escola adoram ele. Eu chego pra deixá-lo, e encontro com outros pais com seus filhos, e alguma criança fala para o pai ou a mãe: “olha o Isaque”.

No começo do ano letivo, percebemos a dificuldade que a escola tinha em trabalhar com ele. Na hora de recreação quando as crianças iam para o parque, o Isaque ficava do outro lado da escola com uma auxiliar, porque ele evitava estar próximo de outras crianças. Na sala de aula, porque o Isaque não ficava sentadinho, pelo contrário, ele ficava correndo pela classe, dando seus gritinhos, e querendo sair todo tempo (ele não gosta de ficar em ambiente fechado), a auxiliar da professora acabava saindo da classe com ele pra não atrapalhar a aula das outras crianças.

Começamos a perceber que ele estava sendo “cuidado” na escola. Eles não sabiam como trabalhar com o Isaque, e isso estava nos deixando incomodados. Na primeira reunião de pais, quando pegamos as atividades que os filhos fizeram no trimestre, o Isaque não tinha feito praticamente nada. Outra coisa que acontecia era que, uma hora antes dele sair, ele ficava com sono, e dormia na escola. Quase todos os dias quando ia buscá-lo, ele estava dormindo.

Mas passado o tempo nós começamos a ver resultados. Ele tinha perdido o “medo” de estar junto de outras crianças. Não mais se incomodava de ser tocado por elas. Ele começou a ficar junto com elas no parquinho. Descobriu e adorou o escorregador. Já não estava saindo mais da sala. Começou a aparecer suas “atividades” na sala. Começou a pedir para ir no banheiro. Era carinhoso com a professora e os alunos. E no final de agosto eu estava começando deixá-lo entrar sozinho na escola. Deixava ele no portão, e ele seguia em direção ao pátio e entrava no corredor a caminho da sua classe. Ainda observava de longe, as vezes ele se distraia e tomava outra direção, mas estava quase chegando lá.

Foi então que eu e a Raquel tomamos uma decisão dificil: mudamos ele para a escola da APAE. Depois de descobrir que a APAE da nossa cidade era referência no trabalho com autismo. Depois que o Isaque passou por todos os médicos da APAE pra que eles confirmassem o diagnóstico de autismo. Depois de toda uma avaliação, a psicóloga da APAE nos sugeriu a mudança e nos falou de como funcionava a escola deles.

Na APAE existe uma ala especialmente voltada para os autistas. As salas de aula são compostas por 5 alunos, uma professora e uma auxiliar (na que o Isaque estava a classe tinha 16 alunos para uma professora e uma auxiliar). Só aí já vimos que na APAE o Isaque poderia ser melhor trabalhado na parte pedagógica.

Uma outra coisa que nos incentivou fazer a mudança de escola é que na escola da APAE, os profisisonais da saúde auxiliam no aprendizado da criança junto a sala de aula. Então, a TO, a Fono, a Psicóloga, a Psicopedagoga vão semanalmente nas salas orientando a professora. Além disso, as crianças contam com terapias alternativas, que no caso deles, é muito importante. Então as crianças têm lá: arteterapia, musicoterapia, hidroterapia, equoterapia, e outros.

Mais um motivo da nossa decisão: Quando a gente descobre que tem um filho autista, os sonhos de vê-lo se formar na escola, fazer uma faculdade, aprender inglês, esses sonhos são despedaçados, pois essas coisas se tornam incertas. Então, começamos a alimentar o simples sonho de que ele seja feliz. Na escola tradicional o ensino é padronizado para crianças “normais”. Não existe material específico. A graduação é padronizada (maternal, infantil, primeiro, segundo, etc). Então, quando optamos pela APAE nós “abrimos mão” daquilo que é “padronizado” em favor dele ser trabalhado em suas deficiências e ter qualidade de vida.

E por último, na escola tradicional aqueles que saem do padrão recebem apelidos, são excluídos, sofrem bullying. Eu sei que existe toda uma vontade de que as escolas possam fazer a “inclusão” nas salas de aula. De que os “normais” e os deficientes possam conviver juntos. Eu sei que isso, inclusive, pode ser ótimo para a sociedade. Mas por enquanto, isso é só vontade. Inclusão nas escolas está só no papel. A sociedade é preconceituosa, e os pais de crianças “normais” não querem que seus filhos estejam sendo atrasado pelas crianças “deficientes”, mesmo que o contato com essas crianças possam estar possibilitando experiências enriquecedoras para seus filhos. A mentalidade de vencedor, de melhor, de conquistar, de se dar bem, permeia a sociedade. E isso não muda do dia para a noite.

Mesmo diante de todos os motivos que apresentei para fazer essa mudança de escola, não posso afirmar que fizemos o correto. O que fizemos foi orar muito buscando direção de Deus, avaliar os prós e os contras, observar ao nosso redor o que Deus estava fazendo, e discernimos que essa era a decisão a ser tomada no momento.

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  1. Lilian Scuciatto disse:

    Olá Marcelo.
    Sou professora da rede pública e este ano tenho um aluno autista. Buscando informações sobre o assunto cheguei até o seu blog.
    Em relação à mudança de escola, acredito que acertamos quando buscamos o melhor para os nossos filhos seguindo as orientações que o nosso Deus nos dá.
    Que Deus abençoe vocês ricamente.
    Abraços
    Lilian Scuciatto

    • Marcelo Moura disse:

      Oi Lilian. É muito bom que as escolas de modo geral tem tentado incluir aqueles que são “diferentes”. Isso faz com que ela repense estrutura, material pedagógico, treinamento de professores, etc. Espero que Deus te use para auxiliar esse aluno.
      Abraços

  2. olá… com o meu amado autista também foi assim! Guardei no bolso o preconceito acerca da carreira academica lá pelo sétimo ano de vida dele, quando a escolinha mais perfeita para atende-lo também fracassou. Hoje ele tem 24 anos!!! E não foi possível alfabetizá-lo!!! Até o método do Prof Reuven Forstein (PEI) eu tentei, que é o melhor que existe. E essa lucidez que como mãe se tem que ter é o melhor carinho e prova de amor que podemos dar a nosso filho com autismo. Quanto antes olharmos realmente para o que ele é e pararmos de sonhar com o que gostaríamos do que ele venha a ser, melhor para todos! Espero que não seja o caso do seu filho, e que ele venha a se beneficiar da alfabetização, mas não o massacre por isso, principalmente por preconceitos.

    ps…ainda não desisti do PEI. Num momento mais funcional do meu filho, ofertarei novamente, mas sem expectativa, apenas por que lhe seria bom.

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